Fenabrave - SC

12/01/2010

Perspectivas 2010


Montadoras celebram recordes de 2009

Vender carros no Brasil nunca foi tão bom negócio como atualmente. Depois de bater recordes de vendas por dois anos consecutivos, a indústria automobilística nacional encerrou 2009 com mais um volume histórico – o terceiro da série. Foram vendidos nada menos que 3,14 milhões de veículos, entre modelos nacionais e importados. Um total impressionante se levar em consideração que o País comercializou 2,34 milhões de automóveis e comerciais leves em 2007 e 1,83 milhão de modelos em 2006 – um salto de 78,2% nos emplacamentos em três anos.

Diante de números tão expressivos, difícil mesmo é esconder o otimismo. Até porque o ano que passou foi marcado por uma forte recessão econômica mundial – a maior em décadas. E enquanto os maiores mercados automobilísticos mundiais (Estados Unidos, Europa e Japão) viram suas economias sucumbirem à crise financeira, o comércio brasileiro e de alguns poucos países, como a China, simplesmente avançaram no sentido oposto, com resultados ‘azuis’. Na comparação com 2008, quando foram emplacados 2,82 milhões de veículos, as vendas aqui cresceram respeitáveis 11,4%.

"Não considero o resultado de 2009 uma surpresa. Quando o governo tomou as medidas de incentivo às vendas na época em que a crise econômica estourou, ficou claro que a economia e as finanças do País tinham condições de suportar o baque. Tanto que o consumidor imediatamente esboçou uma reação, já nos primeiros 90 dias", explica Sério Reze, presidente da Fenabrave (Federação Nacional dos Distribuidores de Veículos Automotores).

Produção e exportações na contra-mão

As mexidas intensas da Volkswagen para tentar recuperar a liderança nas vendas brasileiras de carros levarão a marca italiana a lançar o hatch médio Bravo no segundo semestre de 2010. A Fiat não confirma de jeito nenhum, mas o modelo, que só chegaria em 2011, será lançado meses antes para se antecipar à sexta geração do Volkswagen Golf, prevista para o ano seguinte. Entre os compactos, haverá estreias importantes. A nova geração do Fiat Uno já circula camuflada há alguns meses nos arredores da fábrica de Betim, região metropolitana de Belo Horizonte. E o modelo de entrada da marca pode chegar no segundo trimestre. A montadora lançará ainda a nova família de motores 1.6 litro, derivada do propulsor Tritec fabricado em Campo Largo, no Paraná. A família Palio receberá o bloco. E outras duas variações do hatch retrô 500 chegarão: a conversível Cabrio e a esportiva Abarth.

Foi nas exportações, porém, que a indústria local mais sentiu o impacto da recessão planetária. A queda foi de significativos 35,3%, com 475,3 mil veículos enviados ao exterior ante os 734,6 mil modelos vendidos fora do Brasil em 2008 – menos 259,3 mil unidades. A redução no volume de exportações foi tamanha que, pela primeira vez em 14 anos, ou desde 1995, o total de carros importados foi superior ao de exportados. Foram vendidos por aqui 485,4 mil modelos produzidos no exterior, montante que representou uma fatia de 15,6% nos emplacamentos totais do ano. Ou seja, a demanda interna foi bastante superior à produção, subtraindo-se as exportações.

"Essa projeção é um desafio para a indústria brasileira. Acredito que os mercados externos vão retornar aos antigos índices de exportação. A importação deve continuar entre 15% e 16% em 2010. Justamente por isso, as montadoras devem focar no mercado interno esse ano e na própria indústria nacional para se defender dos concorrentes estrangeiros que estão chegando. As fabricantes fizeram grandes investimentos para renovação de linha, lançamento de novas tecnologias e aumento da capacidade produtiva instalada", aponta Jackson Schneider, presidente da Anfavea.

Indústria projeta crescimento entre 8% e 9,5% para 2010

Como a procura por carros no País anda bastante agitada, nada mais normal que a indústria acreditar em uma seqüência de crescimentos recordes. Para 2010, a Anfavea, por exemplo, aguarda um avanço de 8,2% nos emplacamentos, chegando a um total de aproximadamente 3,4 milhões de veículos entregues no Brasil. Já a Fenabrave, acredita que o setor deve crescer 9,5 pontos percentuais em relação a 2009, com um volume de entregas pouco abaixo dos 3,4 milhões de carros previstos pela Anfavea. Isso mesmo com o fim do incentivo fiscal do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), concedido pelo Governo Federal. A alíquota reduzida, que agora vale apenas para os carros flex, volta aos índices normais a partir de 1º de abril.

"É muito difícil acontecer novamente uma crise como a que estourou no fim de 2008. Os países estão atentos à situação econômica e seria demasiadamente desastroso para a economia mundial sofrer um retrocesso. No Brasil, a ‘casa’ estava relativamente arrumada e, no caso da indústria automobilística, que é um setor especificamente importante, houve um baque inicial muito forte. Mas as medidas tomadas pelo governo ajudaram bastante. Todos os governos estão preocupados com a industria automobilística. É um setor vital para as economias, que envolve várias indústrias", explica Rogério Cezar de Souza, economista do IEDI (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial).

"A economia brasileira está bem. Se olharmos de dentro para fora, o Brasil está equilibrado e tem todos os pressupostos para que 2010 seja um ano de grande normalidade. No exterior, há uma outra situação, ainda crítica. Não houve uma recuperação econômica como a nossa, mas também não houve um aprofundamento da crise. A recessão atingiu um patamar e depois estacionou. Então, os países mais afetados estão fazendo com que suas economias se recuperem, ainda que de forma mais lenta. Aqui, foi totalmente diferente. Por isso, não há tropeços à vista. Teremos crédito e recursos para financiar a economia de modo geral", garante o otimista Sérgio Reze, presidente da Fenabrave.

Mercados externos são o ‘Calcanhar de Aquiles’

Mas se o Brasil vai muito bem das pernas, o mesmo não se pode dizer dos grandes mercados mundiais. Na Europa, as vendas de carros caíram em praticamente todos os países da região na comparação com 2008. Nos Estados Unidos e no Japão, o volume de modelos entregues também sofreu forte redução. Alguns índices superam 40% de queda, com leves retomadas registradas no último semestre de 2009. Isso mesmo com os incentivos fiscais concedidos pelos governos. Na Alemanha, por exemplo, o consumidor que trocasse seu carro usado com mais de nove anos de uso por um zero-quilômetro, ganhava 2,5 mil Euros (R$ 6,2 mil) em crédito.

Por isso, ainda há um receio nesses países de que possa haver um ‘segundo tempo’ da crise financeira. E esse momento pode chegar justamente quando acabarem os incentivos fiscais governamentais que, se não serviram para reverter a situação de recessão, ao menos impediram o agravamento da crise e uma redução ainda maior nas vendas de veículos. "A reação no exterior ainda é tímida. Essa é a perna fraca, principalmente no início do ano. É preciso esperar os outros países retomarem as suas atividades, para que o setor automobilístico brasileiro possa se beneficiar. No segundo semestre, se o cenário melhorar, nossa indústria conseguirá avançar num ritmo mais forte", observa o economista Rogério Cezar de Souza, do IEDI.

Crise ainda é real, mas não amedronta

Apesar de a crise financeira ainda fazer ‘sombra’, a indústria automobilística brasileira parece não temer qualquer reviravolta na estabilidade do País. Principalmente por conta dos incentivos fiscais e da injeção de crédito feita pelo Governo Federal no fimzinho de 2008, quando as maiores economias mundiais entraram em colapso. Com o volume de crédito normalizado, o retorno dos financiamentos de longo prazo e as taxas de juros em queda, as vendas de carros no País dão sinais de que podem seguir fortes mesmo após o primeiro trimestre do ano, quando termina o desconto no IPI.

"A previsão que fizemos para 2010 não contempla qualquer mudança que possa ocorrer no resto do mundo. Evidente que, se por acaso houver um novo agravamento da crise internacional, teremos de rever os percentuais esperados para o Brasil, porque uma mudança radical no cenário econômico mundial provavelmente impactará na economia brasileira. Essa projeção é baseada na tendência atual do mercado nacional, que está equilibrado. Não pleiteamos nenhum novo desconto tarifário, renovação ou incentivo junto ao governo. A única coisa que vamos garantir é a redução do IPI até março", reforça Jackson Schneider, presidente da Anfavea.

A verdade, porém, é que nem a própria indústria sabe se o fim dos incentivos pode comprometer o desempenho em 2010. "Temos um espaço enorme de crescimento para o mercado automobilístico no Brasil. A média de habitantes por veículo ainda é elevada, com cerca de 7,5 pessoas por carro. Nos países ricos, essa média é de um ou dois habitantes por veículo. Só que esse crescimento vai depender de incentivos governamentais, taxas de juros menores, crédito e estabilidade econômica. Existe a possibilidade real de crescermos entre 7% e 10% no ano. Teremos eleições presidenciais, Copa do Mundo, o início dos preparativos para as Olimpíadas de 2016. Mas tudo vai depender da estabilidade tanto no Brasil quanto no resto do mundo", pondera Paulo Garbossa, da ADK Automotive.

Texto: Diogo de Oliveira
Fotos: Divulgação

Fonte: Carsale 

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