Fenabrave - SC

18/09/2009

Brincando com carrões

Crianças aprendem com a Polícia Militar a obedecer à sinalização desde cedo.

Jorge Elias de Carvalho Abud é leitor assíduo da Autoesporte, fã de matérias com testes de carros com os comparativos e frequentador do Salão do Automóvel. Nada de incomum? Jorginho tem 11 anos de idade e já é um automaníaco. Conhece marcas, modelos e novidades de todos os carros, passa o tempo livre lendo e vendo programas de TV que falam sobre o tema e enche a boca para falar de automóvel. “Tinha uns 7 anos e comecei a gostar, sozinho mesmo”, diz cheio de animação. E Jorginho não é uma exceção. Milhares de crianças já crescem com a paixão pelas máquinas e com aquela ansiedade por completar 18 anos e finalmente poder testar a potência de seu próprio carro. 

Jorginho tem 11 anos e já sabe tudo de carros: passa o tempo livre lendo tudo o que pode para descobrir novidades automotivas

Para elas, aulas sobre educação no trânsito passam longe de ser um sacrifício. Mais do que necessárias para garantir a melhoria do comportamento dos futuros condutores, a conscientização sobre como se comportar no trânsito deveria ser ensinada logo cedo, quando os carrinhos ainda são apenas de brinquedo. “Os alunos recebem uma orientação em sala de aula sobre a prática do trânsito, discutem o código, e então vivenciam com os triciclos todas essas situações”, conta Gabriel Guimarães, professor e diretor da unidade Portugal do COC, em Ribeirão Preto. Com os triciclos? Sim, e sem esquecer da habilitação de motorista. Dentro da COClândia, projeto que existe há mais de 17 anos e simula uma cidade de verdade, com banco, residências e até mesmo prefeitura, o que não pode faltar são as leis de trânsito.

As ruas da mini-cidade são sinalizadas, com faixas de pedestres, placas e até mesmo semáforos, e os alunos aprendem desde cedo como devem se comportar no trânsito. Em sala de aula, as crianças entre 7 a 12 anos aprendem em “Exercícios Temáticos” sobre meios de transporte e em “Ciências Sociais”, sobre postura e comportamento. Já na mini-cidade, recebem orientação e assistem a palestras do Comando da Polícia Militar de Ribeirão Preto (SP) e anualmente passam pela semana da Campanha de Trânsito, no fim da qual recebem o certificado e a carteirinha de motorista assinada pela PM em que prometem ser bons motoristas no futuro. Será que teremos mesmo condutores mais responsáveis no futuro?

Para o Dr. Salomão Rabinovich, a longo prazo, isto é possível. O psicólogo diretor do Centro de Psicologia Aplicada ao Trânsito (CEPAT) e presidente da Associação das Vítimas de Trânsito (AVITRAN) acredita nessa possibilidade desde que haja uma grande mudança no modelo da nossa sociedade e, para isso, o papel dos pais na conscientização dos pequenos sobre o trânsito é essencial. “Os pais fazem o cheque para a escola e acham que ela tem que educar. Informação e educação cabem à família, senão não adianta nada”. Para ele, a educação para o trânsito voltada para as crianças é “muito importante desde que tenha como modelo os pais. Se não tiver, é jogar dinheiro fora. Temos que formar cidadãos acima de tudo”. Ou seja, nada de “faça o que eu digo, não faça o que eu faço” quando o assunto é educação para o trânsito. A solução é não só ensinar as crianças, mas fazer o que foi ensinado.

Mas, pelo jeito, quem está aprendendo sobre as regras e comportamentos no trânsito são os pais. “Quando meu filho passou por este período falava ‘pai você passou no sinal vermelho, pai aqui é contramão”, conta o diretor do COC Gabriel Guimarães. “Em sala de aula, peço para que as crianças orientem os pais”. E o resultado positivo sempre aparece nas reuniões destes com professores, quando os marmanjos contam histórias em que levaram um puxão de orelha dos filhos por desrespeitar alguma lei de trânsito.

Então os futuros condutores serão mais atentos e preocupados com as regras de trânsito? Nem todos. Para o Dr. Salomão Rabinovitch, que realiza palestras em escolas, a aceitação do tema não é nada grande. “Não temos receptividade nas escolas, principalmente nas escolas de nível A. Já as comunidades carentes estão sempre ávidas por conhecimento”, afirma o psicólogo.

Alunos do COC aprendem na escola como devem se comportar no trânsito. Será que eles serão melhores condutores do que nós?

Para Solange Souza, coordenadora de Educação Infantil da unidade Verbo Divino do Pueri Domus, “esse não é um assunto que precise ter um espaço só para ele, pode-se discuti-lo de uma forma mais interdisciplinar”. A escola já levou as crianças para mini-cidades para ensinar sobre educação para o trânsito, mas, como os alunos deste ano não se mostraram tão curiosos sobre o tema, a atividade não ocorreu. “Deve haver um foco pedagógico em relação à curiosidade e interesse das próprias crianças”, explica Solange. Mesmo assim, a escola sempre realiza um trabalho relacionado à educação para o trânsito com as crianças de 5 anos de idade. “A escola desenvolve o conhecimento das placas e como conseqüência abordamos a educação para o trânsito, o respeito com a sinalização, os cuidados que se que se deve ter nas ruas”, afirma Solange.

Olhando assim, até parece que teremos bons motoristas no futuro, mas são poucas as escolas que se preocupam com o tema e locais que simulam uma mini-cidade para fazer com que as crianças aprendam na prática sobre educação no trânsito são difícies de se encontrar. Em São Paulo, que reúne a maior frota do país e onde o trânsito é caótico, a principal escola-mirim, a do Detran, está fechada há quatro anos. É assunto para se preocupar, já que as crianças logo trocarão os carrinhos pelos carrões.

Fonte: Autonews

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